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Crônica - Dar Não é Fazer Amor

Dar é dar.
Fazer amor é lindo, é sublime, é encantador, é esplêndido.
Mas dar é bom pra cacete.
Dar é aquela coisa que alguém te puxa os cabelos da nuca...
Te chama de nomes que eu não escreveria...
Não te vira com delicadeza...
Não sente vergonha de ritmos animais. Dar é bom.
Melhor do que dar, só dar por dar.
Dar sem querer casar....
Sem querer apresentar pra mãe...
Sem querer dar o primeiro abraço no Ano Novo.
Dar porque o cara te esquenta a coluna vertebral...
Te amolece o gingado...
Te molha o instinto.
Dar porque a vida é estressante e dar relaxa.
Dar porque se você não der para ele hoje, vai dar amanhã, ou depois de amanhã.
Tem pessoas que você vai acabar dando, não tem jeito.
Dar sem esperar ouvir promessas, sem esperar ouvir carinhos, sem
esperar ouvir futuro.
Dar é bom, na hora.
Durante um mês.
Para os mais desavisados, talvez anos.

Mas dar é dar demais e ficar vazio.
Dar é não ganhar.
É não ganhar um eu te amo baixinho perdido no meio do escuro.
É não ganhar uma mão no ombro quando o caos da cidade parece querer te abduzir.
É não ter alguém pra querer casar, para apresentar pra mãe, pra dar
o primeiro abraço de Ano Novo e pra falar:
"Que que cê acha amor?".
É não ter companhia garantida para viajar.
É não ter para quem ligar quando recebe uma boa notícia.
Dar é não querer dormir encaixadinho...
É não ter alguém para ouvir seus dengos...
Mas dar é inevitável, dê mesmo, dê sempre, dê muito.

Mas dê mais ainda, muito mais do que qualquer coisa, uma chance ao amor.
Esse sim é o maior tesão.
Esse sim relaxa, cura o mau humor, ameniza todas as crises e faz você flutuar

Experimente ser amado...

Luís Fernando Veríssimo

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Crônica de Domingo

Não tão distante do domingo, mas com a "Crônica de Domingo" mais um dia atrasada, porém nunca esquecida de ser postada e hoje uma segunda meio que feriado para os estudandes do ensino médio para baixo, pois no terceiro grau não tem essas frescurites =/ Pois bem leiam mais uma Crônica e exercite sua mente!

Aniversário

Ruy e Nara foram para a cama na hora de sempre. Ruy pegou seu livro. Mas a Nara queria conversar.

- Meu bem…
- Mmmmm?
- Sabe que dia é hoje?
- Quinta.
- Do mês.
- Ahn… Dezoito.
- E então?
- Então, o quê?
- Pense bem. É um aniversário.

Meu Deus, pensou o Ruy. Esqueci o nosso aniversário de casamento outra vez, como no mês passado. Mas se tinho sido no mês passado, não podia ser agora. O aniversário dela também não era. Ou era?

- Que aniversário? - perguntou.
- De uma coisa que aconteceu há muitos anos…
- Muitos anos?
- Antes do nosso casamento.
- Não consigo me lembrar.
- No sofá da minha casa…
- No sofá da sua casa?
- Lembrou agora?

Seria possível? A Nara dera para aquilo, agora. Ele forçou um sorriso, fez um ruído indefinido e voltou à sua leitura. Mas ela insistiu.

- Meu bem…
- Mmmmm?
- Vamos comemorar?
- Vamos - suspirou o Ruy, colocando o livro sobre a mesa-de-cabeceira.

Virou-se para a mulher. Os dois se beijaram. Depois Ruy pegou a livro outra vez. Nara protestou:

- Mas só isso?
- Só isso o quê?
- Só um beijo, Ruy?
- Se eu me lembro, naquele dia foi só um beijo.
- Sim, mas…
- Eu não insisti? Não pedi mais do que um beijo? E o que foi que você disse?
- Eu disse “não”.
- Sua exatas palavras. “Não.”
- Mas depois eu deixei, Ruy.
- Dois meses depois. Dois meses e meio!
- Ah, Ruy…
- Não.
- Então vamos comemorar o que aconteceu dois meses depois.
- Eu, nessas, coisas, sou ortodoxo. Aniversário é no dia!

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Crônica de Domingo

E hoje uma quarta-feira, com o post do domingo, ai vocês estão pensando: JoCi deve ta ficando maluco, ou ta perdido no tempo. Que coisa não? Mas esse post é para não deixar de mão aqueles que apreciam a boa leitura e se distraem lendo uma boa crônica, hoje pode não ser domingo mas para o "Crônica de Domingo" não tem dia! (eu acho)

Ovo


Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos, nos aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de vida perdido cada vez que comia uma gema.

Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver ovo fazia mal. E agora estão dizendo que foi tudo um engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca. A próxima notícia será que bacon limpa as artérias.

Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia ao ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo. A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento de prazer supremo quando o garfo romperá, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso correrá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre os lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com pão. Ou existe e eu é que tenho andado na turma errada. O fato é que quero ser ressarcido de todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos mexidos, e os ovos quentes, e as omeletes babadas, e os toucinhos do céu, e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não morrer dariam várias voltas no globo. Quem os trará de volta? E pensar que cheguei a experimentar ovo artificial, uma pálida paródia de ovo que, esta sim, deve ter me roubado algumas horas de vida a cada garfada infeliz.

Ovo frito na manteiga! O rendado marrom das bordas tostadas da clara, o amarelo provençal da gema… Eu sei, eu sei. Manteiga ainda não foi liberada. Mas é só uma questão de tempo.

Luis Fernando Veríssimo

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Crônica de Domingo

Domingo, diazinho maresia viu, mas um dia bom pra uma boa leitura, pra uma descansada, pra um churrasquinho. Mas aqui no Tabaco é dia de "Crônica de Domingo".

A Verdade

Uma donzela estava um dia sentada à beira de um riacho, deixando a água do riacho passar por entre os seus dedos muito brancos, quando sentiu o seu anel de diamante ser levado pela águas. Temendo o castigo do pai, a donzela contou em casa que fora assaltada por um homem no bosque e que ele arrancava o anel de diamante do seu dedo e a deixara desfalecida sobre um canteiro de margaridas. O pai e os irmãos da donzela foram atrás do assaltante e encontraram um homem dormindo no bosque, e o mataram, mas não encontraram o anel de diamante. E a donzela disse:

- Agora me lembro, não era um homem, eram dois.

E o pai e os irmãos da donzela saíram atrás do segundo homem, e o encontraram, e o mataram, mas ele também não tinha o anel. E a donzela disse:

- Então está com o terceiro!

Pois se lembrara que havia um terceiro assaltante. E o pai e os irmãos da donzela saíram no encalço do terceiro assaltante, e o encontraram no bosque. Mas não o mataram, pois estavam fartos de sangue. E trouxeram o homem para a aldeia, e o revistaram, e encontraram no seu bolso o anel de diamante da donzela, para espanto dela.

- Foi ele que assaltou a donzela, e arrancou o anel de seu dedo, e a deixou desfalecida - gritaram os aldeões - Matem-no!
- Esperem! - gritou o homem, no momento em que passavam a corda da forca pelo seu pescoço. - Eu não roubei o anel. Foi ela que me deu!

E apontou a donzela, diante do escândalo de todos.
O homem contou que estava sentado à beira do riacho, pescando, quando a donzela se aproximou dele e pediu um beijo. Ele deu o beijo. Depois a donzela tirara a roupa e pedira que ele a possuísse, pois queria saber o que era o amor. Mas como era um homem honrado, ele resistira, e dissera que a donzela devia ter paciência, pois conheceria o amor do marido no seu leito de núpcias. Então a donzela lhe oferecera o anel, dizendo: “Já que meus encontos não o seduzem, este anel comprará o seu amor.” E ele sucumbira, pois era pobre, e a necessidade é o algoz da honra.
Todos se viraram contra a donzela e gritaram: “Rameira! Impura! Diaba!” e exigiram seu sacrifício. E o próprio pai da donzela passou a forca para o seu pescoço.
Antes de morrer, a donzela disse para o pescador:

- A sua mentira era maior que a minha. Eles mataram pela minha mentira e vão matar pela sua. Onde está, afinal, a verdade?

O pescador deu de ombros e disse:

- A verdade é que eu achei o anel na barriga de um peixe. Mas quem acreditaria nisso? O pessoal quer violência e sexo, não histórias de pescador.

Luis Fernando Veríssimo

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Crônica de Domingo

Como de praxe todo domingo dia de "Crônica de Domingo", e mais uma semana com crônicas de Veríssimo, grande gênio da literatura e mestre nas crônicas de humor!

Sexa

- Pai…
- Hmmm?
- Como é o feminino de sexo?
- O quê?
- O feminino de sexo.
- Não têm.
- Sexo não tem feminino?
- Não.
- Só tem sexo masculino?
- É. Quer dizer, não. Existem dois sexos. Masculino e feminino.
- E como é o feminino de sexo?
- Não tem feminino. Sexo é sempre masculino.
- Mas tu mesmo disse que tem sexo masculino e feminino.
- O sexo pode ser masculino ou feminino. A palavra “sexo” é masculino. O sexo masculino, o sexo feminino.
- Não devia ser “a sexa”?
- Não.
- Por que não?
- Porque não! Desculpa. Porque não. “Sexo” é sempre masculino.
- O sexo da mulher é masculino?
- É. Não! O sexo da mulher é feminino.
- E como é o feminino?
- Sexo mesmo. Igual ao do homem.
- O sexo da mulher é igual ao do homem?
- É. Quer dizer… Olha aqui. Tem o sexo masculino e o sexo feminino, certo?
- Certo.
- São duas coisas diferentes.
- Então como é o feminino de sexo?
- É igual ao masculino.
- Mas não são diferentes.
- Não. Ou, são! Mas a palavra é a mesma. Muda o sexo, mas não muda a palavra.
- Mas então não muda o sexo. É sempre masculino.
- A palavra é masculina.
- Não. “A palavra” é feminino. Se fosse masculina seria “o pal…”
- Chega! Vai brincar, vai.

O garoto sai e a mãe entra. O pai comenta:

- Temos que ficar de olho nesse guri…
- Por quê?
- Ele só pensa em gramática.

Luis Fernando Veríssimo

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Crônica de Domingo

Domingo dia de "Crônica de Domingo", também é dia de relaxar e se preparar pra longa semana que vem pela frente! Mas apreciem da boa leitura e do humor dessa crônica!

Gaúchos e cariocas

É preciso dizer que estávamos naquela brumosa terra de ninguém, que fica depois do décimo ou do 15º chope. Tão brumosa que não dá mais para distinguir entre o décimo e o 15º. Tínhamos sido apresentados no começo da noite mas já éramos amigos de infância. Em poucas horas nossa amizade passara por vários estágios, desde o “leste o livro do Chico?”, até as piores confidências, e agora nos comportávamos como confrades, como se nossa amizade fosse mais antiga que nós mesmos. Isto é, estávamos brigando.

- Vocês, gaúchos…
- O que é que tem gaúcho?
- Pra mim gaúcho é tudo veado.
- Não Radicaliza.
- Se tem que dizer que é macho, é porque não é.
- Lá no sul se diz que numa briga de gaúcho, paulista, mineiro e carioca, o gaúcho bate, o paulista apanha e o mineiro aparta.
- E o carioca?
- Fugiu.
- Viu só? Pensam que são mais machos que os outros. Diz que as bichas de Paris protestaram porque as bichas cariocas estavam invadindo o seu mercado: “Voltem para o Rio. Go home!”. Aí as bichas cariocas reagiram: “Ah, é? Então tirem as gaúchas de lá.”
- Está aí, fugiram. Mas isso tudo é mágoa porque são os gaúchos que mandam neste país. Vocês estão assim desde que nós amarramos os cavalos ali no obelisco.
- Aliás, essa fixação no obelisco…
- Gaúcho é o único brasileiro sério.
- Sem graça não é sério.
- Só o gaúcho fala português. Essa língua de vocês não existe. Paulista põe “i” onde não têm. Você falam chiando. Onde tem um “r” botam dois e onde tem dois botam quatro.
-Vocês falam espanhol errado e pensam que é português!
- Mas o que a gente diz é pra valer. Não é como carioca que diz uma coisa e quer dizer outra.
- Ah, é?
- É. Quando carioca encontra alguém e diz: “Meu querido!”, quer dizer que não se lembra do nome. “Precisamos nos ver” quer dizer “está combinado, eu não procuro você e você não me procura”.
- O que vocês não aguentam é que nós, cariocas, somos informais, bem-humorados…
- Isso é mito. Entra num “Grajaú-Leblon” lotado na Nossa Senhora de Copacabana, às três da tarde, no verão, que eu quero ver o bom humor.
- Não radicaliza.
- Os mitos cariocas. O Zico, por exemplo…
- Eu sabia. Eu sabia que ia chegar no Zico!
- O Zico é uma entidade abstrata criada pelo inconsciente coletivo do Maracanã.
- O Campeão do Mundo. Campeão do Mundo!
- Porque não entrou um inglês no calcanhar dele. Se encosta um, o Zico cai.
- É. O bom é o Batista.
- Não troco um Batista por dois Zicos.
- Ai, meu Deus. Ai, meu Deus!
- Outra coisa: mulher.
- Claro. Mulher. A mulher carioca não vale nada.
- Vale. Mas é sempre da mesma cor. Mulher tem que ir mudando de cor com as estações. Quando chega o verão, as gaúchas vão tostando aos poucos, como carne num braseiro de chão, até estar no ponto. Só ficam prontas mesmo em fevereiro. A carioca está sempre bem passada. É como comer churrasco em bandeja.
- É. A medida de todas as coisas, para o gaúcho, é o churrasco. A comida mais sem imaginação que existe.
- Vai dizer que comida é isto que vocês comem aqui?
- Mas bá.

Eu estava levando o chope à boca e parei.

- O que foi que você disse?
- Eu? Nada.
- Você disse “mas bá”.
- Não disse.
- Disse. Eu ouvi nitidamente um “mas bá”.
- Está bem. Eu disse.
- De onde você é?
- Dom Pedrito.

Estava no Rio há menos de dois anos e chiava como uma locomotiva no cio. Mas não me senti triunfante. Me senti derrotado. Eu estranhara ele não ter dito: “Se você gosta tão pouco do Rio, o que é que está fazendo aqui?”. Eu não poderia responder a não ser com a verdade, que era fascinado pelo Rio. Uma característica de gaúcho é que gaúcho é fascinado pelo Rio. E ali estava ele como prova que depois do fascínio vinha a rendição, a vitória carioca. Acabou a discussão. Nos despedimos e saímos, cada um cambaleando para um lado. Na saída ele ainda disse:

- Precisamos nos ver…

Luis Fernando Veríssimo

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Crônica de Domingo

Domingo dia de relaxar, apreciar a boa leitura, melhorar a cultura e descansar de toda a agitação da semana e como domingo é dia de "Crônica de Domingo" fiquem ai com a dessa semana!

O Parto

Casamos novos. Ela com 19 e eu com 20 anos de idade. Lua-de-mel, viagens, mobílias na casa alugada, prestações da casa própria e o primeiro bebê. Anos oitenta e a moda era ter uma filmadora do Paraguai. Sempre tinha um vizinho ou amigo contrabandista disposto a trazer aquela muambazinha por um preço módico. Ela tinha vergonha, mas eu desejava eternizar aquele momento.

Invadi a sala de parto com a câmera no ombro e chorei enquanto filmava o parto do meu primeiro filho. Todo mundo que chegava lá em casa era obrigado a assistir ao filme. Perdi a conta das cópias que fiz do parto e distribuí entre amigos, parentes e parentes dos amigos. Meu filho e minha esposa eram os meus orgulhos. Três anos depois, novo parto, nova filmagem, nova crise de choro.

Como ela categoricamente disse que não queria que eu filmasse, invadi a sala de parto mais uma vez com a câmera ao ombro. As pessoas que me conhecem sabem que havia apenas amor de pai e marido naquele ato. O fato de fazer diversas cópias da fita era apenas uma demonstração de meu orgulho.

Nada que se comparasse ao fato de ela, essa semana, invadir a sala do urologista, câmera ao ombro, filmando o meu exame de próstata. Eu lá, com as pernas naquelas malditas perneiras, o cara com um dedo (ele jura que era só um! ) quase na minha garganta e minha mulher gritando: Ah! Doutoor! Que maravilha! Vou fazer duas mil cópias dessa fita! Semana que vem estou enviando uma para o senhor!

Meus olhos saindo da órbita a fuzilaram, mas a dor era tanta que não conseguia falar. O miserável do médico girou o dedo e eu vi o teto a dois centímetros do meu nariz. A mulher continuou a gritar, como um diretor de cinema: Isso, doutor! Agora gire de novo, mais devagar. Vou dar um close agora!!
Alcancei um sapato no chão e joguei na maldita.

Agora, estou escrevendo este e-mail, pedindo aos amigos que receberem uma cópia do filme, que o enviem de volta para mim. Eu pago o reembolso.

Luiz Fernando Veríssimo

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Crônica de Domingo

Agendas Rotineiras

Parece redundância. Talvez seja. Se é pra estar na lista do que fazer, parece óbvio que é pra seguir uma certa rotina. Mas há certas coisas e atos que se tornam incorporados, e, não sei que parte do corpo ou do cérebro dita suas normas, mas todo mundo parece seguir sem pestanejar.

O mais chato e irritante é ter que ouvir o de sempre: “Eu estou apenas fazendo meu trabalho.” Aí é que mora o perigo. Não sei quando foi que inventaram a escravidão do trabalho como forma de conquistar a liberdade. E com isso se justificam os cortadores de árvores, os matadouros de aves e vacas e porcos, os cortadores de gramas e podadores de árvores naturais, os construtores compulsivos com seus cimentos e tijolos empilhados, os policiais de ronda que espancam as pessoas em nome de manter uma possível ordem, as faxineiras domésticas que arrastam os moveis e passam o aspirador de pó com o rádio ligado às tantas - mesmo que tenha alguém em casa de cama, não suportando barulho -, os garçons e catadores de pratos das mesas que o fazem sem pensar, mesmo antes de se terminar o jantar servido, etc.

E assim vou enumerando essa massa de “gente” que se justifica ser humano, cumpridores dos deveres, vendedoras de seu tempo de vida em nome do salário pra consumir mais coisas e mais matérias, sem pensar se de fato é preciso.

E mais alguns carros são lançados na cidade, todas com seus pilotos automáticos, atrás de uma fila, indo para o trabalho - cumprindo suas agendas. E tome mais poluição, mais venenos em todos os sistemas, mais desequilíbrios nas cidades, nas casas, nas relações todas, até a total sacudida do planeta.

E segue-se o rumo “natural” das coisas que é apenas a falta de senso. Já nem digo mais que seja bom ou ruim, mas algum senso.

O “eu não quero nem saber porque tenho mais o que fazer” virou um jargão altamente aceito e justificável diante de toda e qualquer omissão. Não se pára mais pra ver o custo benefício de nada. Sacrifica-se mais alguma coisa, mais uma hora, mais um diálogo, mais uma presença, mais uma refeição decente e natural, em nome do correr pra matar um leão. E todo mundo achando isso o máximo. Seguir a agenda, cumprir a rotina - parece coisa de ronda de soldado de plantão que nem sabe o que está fazendo na guerra, e porque está lá, mas está cumprindo seu dever.

Eu fico aparvalhada, catatônica quase, diante da constatação desse programa destrutivo que degrada toda a espécie e a condena à extinção e a todas as outras. A ambição do fazer, o correr atrás de algo, o ter que fazer por fazer, virou mais do que um hábito ou um ato de sobrevivência: trata-se de uma endemia coletiva, que nada soluciona. Não acaba com a fome do planeta, não apazigüa os ânimos de nenhum ser respirante, não traz nenhum bem efetivo pra ninguém em nenhum lugar, apenas implementa a fome de ganhar, de investir em mais ilusões pra tentar saciar o vazio que consome internamente cada um e por isso há que se ocupar o tempo com qualquer coisa pra não encarar a terrível forma de escolher o próprio destino.


Escolhas... Quem está escolhendo o que diante do fato de cumprir as agendas e as rotinas? Quem ousa quebrar com seus próprios vícios pra escutar o grito silencioso de alguma virtude?


Os dias passaram a correr mais rápido, parecem seguir o ritmo acelerado da fome insaciável de tantos de ter mais uma graninha pra comprar mais uma bugiganga. E por que as horas se escasseiam, há que tomar pilulas mais, vitaminas a mais, ginásticas a mais, pra continuar a manter a corrida desenfreada em busca de alcançar o pique que é o portal pra destruição de todos nós.

Soube recentemente que falta apenas quatro anos pra grande virada... Do jeito que vamos, a Terra nos vai paralizar a todos, para sua grande sacudida no final de 2012.

Enquanto isso... Ooooohhhhhmmmmm!
Sandra Paes

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Crônica - A mulher perfeita

Como muitos homens – e acredito que as mulheres também façam isto uma vez na vida – peguei-me pensando, alguns dias atrás, em como seria a mulher perfeita…

Não aquela Angelina Jolie, que não conhecemos e que todos queremos comer, mas a companheira ideal, lembra? Aquela pra se conviver por uma vida ou mais… será que existe? Claro que todos fazemos das nossas experiências anteriores a base para a nossa mulher perfeita – cada um com a sua, pois a minha não divido com ninguém.

A cada namorada, a cada mulher que conhecemos levamos algo conosco, senão algo que gostamos, pelo menos temos a certeza do que não queremos para nós; e isso é muito mais importante.

Companheiras todas são, cada uma à sua maneira… Então o que faria de uma mulher “comum” a minha perfeita? Sim, os olhos verdes e os cabelos ruivos (naturais, de preferência), que sempre idolatrei fariam parte dela… pele branquinha; nem muito gorda, nem muito magra; deveria ser baixinha – não tem como eu, de 1,65m querer uma mulher de 1,90m do meu lado… peito e bunda, se não fosse pedir demais – mas nunca é demais por ser perfeita… boca de veludo, um perfume que embriaga e olhos que transmitem confiança… e seneridade. Não precisa saber escutar, porque eu não falo muito, mas precisa ter idéia do que eu estou falando; concordar e discordar é o de menos, mas tem que ter idéias próprias, opinião… isso me faria acreditar que ela me escolheu por algum motivo – lógico ou ilógico. É… inteligência faz parte da minha mulher perfeita; mas não apareça uma intelectualóide, devoradora de livros, que saiba e só saiba falar de Gabriel Garcia Marquez, que tenha lido Marx em três diferentes línguas, das mostras de cinema francês que já vira, ou das obras de Renoir, Picasso e Rembrandt. Prefiro uma que saiba apenas diferenciar um quadro de Picasso de uma escultura de Michelangelo, aquela que quase implora para eu acompanhá-la a uma comédia romântica no cinema, pra ficar de mãos dadas com ela e achar aquilo, como diria uma amiga… fofo. Sim, uma que saiba indicar Madagascar, Deu a Louca na Chapeuzinho, Shrek ou Nemo, porque são engraçados e, ao mesmo tempo, são inteligentes, sem cair no ‘boring’ das películas francesas. Ela me chama para assistir O Poderoso Chefão à noite, e não acabamos de assistir, pois o clima esquenta quando Marlon Brando é baleado.

A mulher perfeita é aquela que curte festas, gosta de ir acompanhada e se diverte assim; quer liberdade para dançar, mas dança só para mim… todos olham admirados para o jeito desinibido dela dançar e ela não liga, pois geralmente está de olhos fechados ou encarando os meus; não tem medo das críticas alheias, pois sabe que só criticam aqueles que têm inveja e não podem fazer igual. Ela gosta de música eletrônica, se requebra como louca com qualquer bate-estaca mas, em casa, prefere ouvir minha interpretação de Julio Iglesias aos sussurros em seu ouvido. É aquela que pode não entender, mas respeita minhas amizades e compreende a vontade de sair apenas com eles de vez em quando; ela não exige, mas tem e aproveita o direito de sair sozinha também; e eu sempre me preocupo, pois assim como eu a encontrei, numa festa, ela pode encontrar outro; e toda vez que ela volta para mim no fim da noite, eu me sinto melhor.

Ela gosta de vinho branco doce alemão, a despeito do que diz qualquer sommelier… toma champagne italiana em taça de metal, comprada em uma feira de garagem de uma igreja por R$3,00, U$2,00 ou £1,00 É a que brinda olhando nos meus olhos, enxergando minha alma e sabendo, mesmo sem eu dizer, que meu amor por ela não tem fim, pois meus olhos dizem essas coisas. Ela é independente, mas precisa de carinho; é aquela que gosta de ter o próprio espaço mas, mesmo brigados, dormimos abraçados, de conchinha ou com a cabeça no meu peito; e eu não canso de afagar os seus cabelos, mesmo que ela esteja dormindo há mais de meia hora; ela não tem medo do hálito matutino, sabe que a amo e não é o gosto de guarda-chuva que vai atrapalhar um beijo de bom-dia…

A mulher perfeita tem uma árvore… aquela velha árvore da rua, que tem flores grandes e brancas e toda vez que ela sai de casa, tem que passar ao lado e tocar o tronco, como quem pede uma benção. Ela tem um amor grande pela natureza, entende os animais e o sofrimento nas marcas das plantas… e, sem parecer piegas, se compadece disso. Eu penso até que ela entende melhor os animais que a mim, mas isso não me importa pois os animais vão até ela e ela vem até mim. Não se dá bem com a tecnologia; tudo parece ter curtos-circuitos nas mãos dela; tem um celular de última geração para apenas tirar fotografias; e ela ama tirar fotos, mas não de aparecer nas mesmas.

Tem que gostar de esportes, entende muito mais que eu, mas não é fanática por isso; “Sair hoje? Mas hoje tem Barca x Manchester United na tv!”. Praticou duas ou três artes marciais quando menor, para aprender a se defender; pratica sua meditação enquanto eu tomo banho, ou mesmo na manhã que eu durmo até mais tarde. Alonga-se, deliciosamente, ao acordar e faz uma massagem incomparável para eu dormir. E, mesmo quando estou dormindo, ela me acorda, me seduz - e como ela sabe provocar - fazemos amor a noite toda e, na manhã seguinte, nossas energias estão renovadas, pois amor, com a mulher perfeita, não cansa, mas revigora, pois ela goza e sabe me fazer gozar.

Não fala “eu te amo” desde nosso primeiro beijo, pois não sentia isso naquela hora… sabe que uma paixão se transforma em amor com o tempo, mas que o amor nunca acaba, podendo se transformar em cumplicidade, em fraternidade… ela sabe que não se pode explicar o amor, que podemos apenas senti-lo dentro de nós… e esta falta de palavras não a deixa preocupada, pensando se eu a amo, adoro, é minha amiga ou irmã, pois tem certeza de que estes quatro sentimentos fazem parte do que eu sinto por ela.

Estranho falar da mulher perfeita… a cada pessoa que conhecemos subimos um degrau na escada da nossa perfeição; e continuamos, apesar de sabermos que esta escada ultrapassa o infinito, pois essa perfeição macroscópica, simplesmente, não existe… difícil falar de alguém que amamos e deixamos de lado por motivos imperfeitos.

Texto : Maurício Eder

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Crônica de Domingo

Domingo, dia de relaxar, curar a ressaca, ler um bom livro, namorar, dia de fazer muitas coisas e domingo aqui no Tabaco Aditivado vai ser dia de Crônicas, isso mesmo. Nós também proporcionamos cultura aos nossos leitores, não sei se a maioria vai gostar, mas já é uma boa forma de incetivo a leitura. Aliás tem vários tipos de Crônicas e a cada semana vou modificando!

AMOSTRA GRÁTIS

Minha mãe nos dava presentes — a mim e a minha irmã — por profissão. Muitas vezes, ao chegar em casa, ela retirava de sua bolsa — branca como toda a sua roupa — umas caixinhas miúdas e coloridas. Eram pequenas pastas de dente ou escovas, fios dentais, líquidos coloridos e — se estivéssemos mesmo com sorte — alguns brindes, minúsculos brinquedos.

Quando cresci um pouco mais, eu soube que aqueles "presentes" eram amostras grátis dadas por representantes comerciais que queriam divulgar seus produtos para minha mãe, que era dentista.

Ao mesmo tempo em que nos trazia esses mimos vindos de pessoas que eu não conhecia, minha mãe advertia para que não aceitássemos — na escola ou na rua — coisa alguma que nos fosse oferecida por estranhos. Mais tarde eu descobriria que traficantes de drogas também distribuíam amostras grátis de seus "produtos" com o objetivo de viciar pessoas e conseguir novos clientes.

Lembrei disso porque ontem, ao tentar contratar um serviço de banda larga de internet, a atendente me informou que eu pagaria mensalidade reduzida nos três primeiros meses de contrato. E, refletindo um pouco mais, me ocorreu que essa prática da amostra grátis (ou com desconto) vai muito além do marketing. Ou você nunca reparou que os inícios têm uns agrados que aos poucos vão sumindo — mas sempre nos dando aquela sensação de que foi de repente?

Ocorreu-me mesmo que a paixão inicial nos relacionamentos, aquela que tentamos manter a todo custo mas que, invariavelmente acaba (ou pelo menos diminui) em alguns meses... ocorreu-me que essa paixão é uma espécie de amostra grátis do amor. Naquele início arrebatador, recebemos gratuitamente toda a felicidade do mundo — chegando ao ponto de perguntarmo-nos o que fizemos para merecer tanta coisa boa. Pouco a pouco toda a felicidade do mundo vai se transformando numa felicidade mais modesta: o tubinho de pasta esvazia, a escovinha de dentes desfia, o fio dental acaba e, dos líquidos coloridos, resta só o pequeno vidro transparente; até os brinquedinhos revelam-se frágeis, os carrinhos vão perdendo as rodinhas, as bonequinhas vão ficando sem olhos.

O que fazer?

Há quem peça mais. Mais não há. O tubo que há é grande, a escova é do tamanho padrão, o fio tem muitos metros mais de comprimento e os frascos não são nada franceses. Brinquedos? "Não fazem parte da nossa lista de produtos." Há quem se sinta enganado, indignado. "Eu, pagar por algo que já recebi de graça? Nunca!" Mas a verdade é que a amostra mostrou o que tinha de mostrar e a gratuidade gracejou a graça do produto. Se é bom, por que não pagar por ele? Por que não incluir no orçamento, reservar um dinheirinho pra ter de novo aquela felicidade?

Os representantes comerciais fazem a parte deles. Minha mãe fez a parte dela. A Vida, o Destino, Deus continuam fazendo sua parte, nos oferecendo gratuitas mostras de felicidade e alegria. Também temos que fazer nossa parte: botar a mão no bolso, sintonizar o ouvido na música, encostar o silêncio na paz, aprumar o pensamento na esperança, acordar o corpo no carinho, afinar o coração na paciência... ser gente grande e ganhar com nosso próprio valor a graça de ser mostrado ao que há de melhor.

Eduardo Loureiro Jr.

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